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João Pessoa x Rio de Janeiro: Paz e Violência me fez decidir o dilema entre onde passar minhas férias.
O cheiro do café que acabei de coar invade meu apartamento enquanto abro o laptop para comparar passagens aéreas, eu quero viajar, sim quero mesmo. Estou com uma sensação estranha no estômago – aquela mistura de excitação e ansiedade que sempre me acompanha quando preciso tomar decisões. As férias estão já chegaram, mas a pergunta que não quer calar: João Pessoa ou Rio de Janeiro? Para onde devo ir e passar minhas férias?
Cresci ouvindo histórias sobre o Rio. Meu pai, carioca de coração, tinha os olhos que brilhavam ao descrever o Pão de Açúcar emergindo da névoa matinal ou o som das ondas em Ipanema. Essas memórias transmitidas criaram em mim um desejo latente de conhecer a Cidade Maravilhosa, de sentir na pele o que sempre ouvi em palavras.
Mas não posso ignorar os noticiários. O peso das manchetes sobre violência no Rio me comprime o peito como se eu estivesse carregando pedras molhadas dentro do pulmão. Respiro fundo. Tento separar o sensacionalismo da realidade, mas não é fácil quando amigos compartilham histórias de assaltos e áreas proibidas.
Na semana passada, conversando com Marcela, minha colega de trabalho que morou em João Pessoa por cinco anos, percebi uma mudança na minha respiração. Ela descrevia as manhãs na Praia do Cabo Branco – "o céu encontra o mar num azul tão intenso que parece falso, sabe?" – e senti meus ombros relaxarem pela primeira vez em dias.
A verdade incômoda é que tenho medo. Não apenas um medo racional de lugares desconhecidos, mas um temor que se infiltrou em mim através de anos consumindo notícias sobre arrastões, balas perdidas e territórios dominados pelo tráfico. Esse medo é como um parasita que se alimenta dos meus sonhos cariocas.
João Pessoa, por outro lado, aparece nas minhas pesquisas como um oásis de tranquilidade. A capital paraibana carrega o título não oficial de "segunda cidade mais segura do Brasil", o que acalma minha ansiedade como um cobertor quente em noite fria. Mas será que estou deixando o medo decidir por mim?
Na última terça-feira, enquanto aguardava minha vez na fila do banco, me peguei refletindo sobre como medimos qualidade de vida. Segurança é fundamental, claro. Mas e a vibração cultural? O Rio pulsa com música, arte e história em cada esquina. Posso sentir essa energia até mesmo nas fotografias – um chamado que ressoa em frequências que só minha alma parece captar.
Fecho os olhos e imagino: de um lado, o calor acolhedor e as ruas tranquilas de João Pessoa, as praias menos lotadas, o ritmo mais lento que talvez cure minha ansiedade crônica. De outro, o Rio com sua intensidade caótica, seus contrastes violentos entre beleza e perigo, seu chamado irresistível que me acompanha desde a infância.
Esta decisão vai além de escolher um destino para férias. Percebo agora que estou decidindo entre duas versões de mim: aquela que busca segurança ou a que deseja intensidade, mesmo com seus riscos. Cada lugar representa uma possibilidade de existência.
Ontem à noite, acordei às 3:17 da manhã com uma clareza surpreendente. Percebi que meu medo do Rio não é apenas sobre estatísticas de violência – é sobre perder o controle, sobre me render ao imprevisível. João Pessoa representa o conforto do conhecido, mesmo sem conhecê-la.
Talvez a escolha mais honesta não seja baseada apenas em índices de criminalidade ou belezas naturais, mas na pessoa que desejo ser durante essas duas semanas. Quero me permitir ser vulnerável ao novo? Ou preciso do abraço seguro de uma cidade que promete tranquilidade?
No fim, paguei a passagem para o Rio. Não porque ignoro os riscos, mas porque decidi que o medo não definiria meus horizontes. Estabeleci limites claros: bairros específicos, horários seguros, nada de exibir objetos de valor. Paradoxalmente, este planejamento defensivo me libertou para abraçar a experiência.
A paz que João Pessoa oferece é sedutora, especialmente para alguém como eu, que vive sob a pressão constante dos prazos e obrigações. Mas o Rio me chamou mais forte – não apenas por suas paisagens de cartão-postal, mas por me desafiar a encontrar minha própria paz interior mesmo em meio ao caos.
Quando compartilhei minha decisão com meu pai, ele sorriu daquele jeito que só ele sabe, misturando orgulho e preocupação. "O Rio te muda", disse ele, "te ensina que a beleza e o perigo podem coexistir no mesmo lugar, assim como dentro da gente."
E talvez seja essa a lição que eu precise aprender nessas férias – não apenas sobre cidades, mas sobre a vida. Sobre encontrar momentos de calma mesmo quando tudo ao redor parece instável. Sobre reconhecer que tanto a paz quanto a violência existem em algum grau em qualquer lugar, inclusive dentro de mim.
A próxima vez que eu abrir meu armário para fazer as malas, saberei que não estou apenas escolhendo roupas para uma viagem, mas embalando expectativas, medos e sonhos. E independentemente do destino, a verdadeira jornada sempre acontece dentro de nós. Essa é uma grande verdade que não deve ser discutida.
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